quinta-feira, 17 de abril de 2025

O SANTO MILAGRE E O HOMEM DAS BOTAS

 O SANTO MILAGRE

Em 1246, no reinado de D. Sancho II segundo uns, ou em 1247 segundo a “História de Santarém edificada” do padre Inácio da Piedade e Vasconcelos, na regência do conde de Bolonha, ou ainda em 1266, quando este já reinava como D. Afonso III, opinião mais comum, vivia na rua das Esteiras, freguesia de Santo Estevão, na então vila de Santarém, uma mulher que era cruelmente maltratada pelo marido.
A infeliz atribuía isto a amores adúlteros, pois suspeitava que ele se relacionava com outra mulher e, tendo uma comadre judia e com fama de bruxa, no intento de por fim ao seu martírio, a foi consultar para que desse remédio para os seus males.
Esta aconselhou-a a que fosse comungar e, sem que alguém visse, retirasse da boca a hóstia e lha levasse embrulhada numa baetilha (lenço). “Prometo-te que, se assim fizeres, o teu marido voltará ao bom caminho”.
A pobre mulher, se bem que acreditou, melhor o fez. Na manhã seguinte dirigiu-se à igreja de Santo Estevão, próximo de sua casa, procedendo conforme lhe fora indicado pela comadre.
Voltando da igreja, ao passar por uma travessa (que mais tarde foi se tapada e onde se via, na parede que faz frente para a rua, depois chamada do Milagre, uma cruz de azulejo muito antiga e junto da qual esteve uma pintura que, já em 1740, mal se percebia, representando o sacrilégio), as pessoas com quem se cruzava lhe perguntavam se estava ferida, porque do lenço escorria sangue. A mulher compreendeu que algo de extraordinário se passava e, entre o receio e o arrependimento, não sabendo que responder, mudou de rumo e fugiu para casa a guardar a Sagrada Partícula que sacrilegamente havia conspurcado, arrecadando-a numa arca, no quarto onde dormia.
Voltando o marido, à noite, depois de cear (jantar) foram deitar-se. Quando já tinham passado o primeiro sono, acordou ele e viu o quarto inundado de uma luz brilhante que vinha da arca assim como um suave perfume que se espalhava pelo quarto. Assombrado por aqueles resplendores que saíam da arca, questionou a mulher, que, aflitíssima, lhe contou o que se tinha passado. Não tiveram mais cuidados do que rezar e, logo que rompeu o dia, dirigiu-se ele à igreja de Santo de Estevão a contar o sucedido.
Os sacerdotes que lá se encontravam, acompanhados das pessoas mais importantes da terra e de muito povo, encaminharam-se logo para a casa dos dois pecadores e levaram, em procissão, a milagrosa Partícula envolta na baetilha até à igreja, onde ficou depositada. Purificou-se a arca, embebendo algum do sangue em cera, de que se fez a primeira custódia, não parando os efeitos desta maravilha. Passados alguns anos, pretendendo o pároco expô-la aos fiéis, deparou com a Sagrada Hóstia recolhida numa âmbula (vaso para guardar os Santos Óleos) de cristal, fabricada pelos anjos. A baetilha foi doada ao mosteiro do Domínicos.
Não tardou a disputa entre os frades domínicos e menores (os dois mosteiros da vila), a igreja paroquial de Marvila, antiga freguesia de Santarém e a Colegiada da Alcáçova, que todos queriam a honra de ter à sua guarda o Santo Milagre.
Os domínicos e menores pretendiam ambos ter direito a possuir a relíquia, por serem os lugares mais decentes para o seu culto; o pároco de Marvila alegava que a sua igreja, além de ser a matriz das outras, era maior e mais sumptuosa, e que era lá que devia estar; o prior e cónegos da colegiada de Alcáçova alegavam o mesmo direito, por a sua igreja ter o privilégio de capela real; o pároco e o povo de Santo Estevão alegavam que a hóstia era sua, pois tinha saído da sua igreja. Venceram estes, mas contentaram os frades de S. Domingos doando-lhes a baetilha, que guardaram num caixilho de cristal juntamente com duas bolinhas da sagrada cera em que se recolheu o sangue.
Quanto às duas mulheres, a que aconselhou e a que cometeu o sacrilégio, a história não diz se foram castigadas (se nesse tempo já houvesse a inquisição, tínhamos festa e lenha para um bela fogueira, pela certa).
Uns 20 metros ao norte da igreja de Santo Estevão, no alpendre de uma ermida particular dedicada a Nª Sª de Monserrate, mandou o seu proprietário (Francisco Homem de Magalhães) colocar um retrato de duas mulheres; mostra ser a sacrílega e a judia, ou outra qualquer de povo, com a seguinte inscrição:

NO LUGAR EM QUE ESTÁ ESTA ERMIDA, SE VIO SANGUE NA BAETILHA EM QUE A MULHER TRAZIA A PARTICULA QUE HOJE HE VENERADA PELO SANTÍSSIMO MILAGRE. REFORMOU ESTA ERMIDA THOMAZ HOMEM DE MAGALHÃES.

Do lado exterior da parede, que faz frente a rua pública, foi colocada a cruz já referida.

A casa onde viveu a mulher sacrílega, com o passar tempo se foi arruinando, convertendo-se num pardieiro desabitado. Em 1654 ali se construiu, à custa do então médico Manuel dos Reis Tavares, uma bonita capela abobadada de tijolo e com uma boa pintura no retábulo do altar-mor, representando o milagre e junto, do lado da epístola, se fez um arco na parede e se construiu um túmulo sobre dois leões, tendo na frente a inscrição:

D’ESTA CASA ONDE DEUS FEZ O SANTÍSSIMO MILAGRE, ANNO 1266, FIZERA EGREJA, O LICENCIADO MANUEL DOS REIS TAVARES E MARGARIDA CESAR DE ALMEIDA E A DOTARAM, E JAZEM DEBAIXO DO ALTAR D’ELLA.

Por esta inscrição se pode ver que o milagre sucedeu em 1266, no entanto parece que se mantém a dúvida quanto às datas.

Decorreram os séculos, honrando-se Santarém de ser a custódia do Santo Milagre, até que, no tempo da guerra peninsular, os escalabitanos, temendo que os ímpios soldados franceses roubassem ou desacatassem o seu tesouro – o santo milagre – o levaram para a Sé de Lisboa, debaixo de rigoroso segredo, e dali removido para a capela do patriarca, no palácio da mitra, em Marvila.
A notícia de que os malvados franceses tinham entrado em Coimbra, causou grande pânico na população, que, sabedora das atrocidades que os soldados de Napoleão cometiam por onde passavam, tratou der se pôr a salvo, fugindo para os campos.
Já pouca gente havia na vila e os franceses, que tinham cometido toda a espécie da sacrilégios e barbaridades, marchavam sobre o Tejo. Santarém não esperava melhor sorte. A solução era fugir. Mas, o Santo Milagre? Haviam os Santarenos de o abandonar?
O beneficiado da colegiada de Santa Estevão (Francisco Paula Baptista) procura o vigário geral da vila e resolvem que o precioso tesouro seja levado para lugar seguro.
Entretanto surgem na Calçada do Monte as guardas avançadas do exército francês e o beneficiado corre à igreja, retira a relíquia de Santo Estevão e as custódias, disfarça-as numa trouxa de roupa, introduz a Sagrada Partícula num saco, que pendura ao pescoço, e marcha para o campo da Valada. Ali, pede que enterrem a roupa com os objetos do culto no meio duma vinha, passa o rio, vai a Salvaterra de Magos, Samora Correia e segue para Lisboa.
No meio disto, o patriarca de Lisboa, sabendo que Santarém fora invadida, fica em cuidados pela sorte da miraculosa hóstia e trata de indagar, através dos escalabitanos refugiados na capital, onde possa ela estar. É informado que era o beneficiado Baptista quem tinha a chave do sacrário e que fugira a caminho de Lisboa; manda-o procurar e este nega que tenha o Santo Milagre ou sequer saber dele. É preso e encerrado no Aljube. Não acreditam na sua ignorância; supõem-no dissimulado. Presta depoimento no dia seguinte e acaba por confessar que tem a Sagrada Partícula consigo, mostrando a bolsa pendurada ao pescoço, por baixo da roupa.
Informado, o patriarca manda preparar uma carruagem forrada a damasco de seda branca e, já de noite, vai ao Aljube, abraça o beneficiado, toma conta do invólucro com a Partícula e seguem na carruagem para a sua quinta em Marvila, ladeados pela criadagem a pé, com brandões (tochas) acesos.
Muitos sacerdotes aguardam ansiosos o precioso depósito, que é levado para a capela, cantando-se o Tantum ergo. Semanas depois, ao fim de tantas vicissitudes, foi o Santo Milagre exposto pela primeira vez à adoração dos fiéis.

O HOMEM DAS BOTAS

Terminado o período das tropas de Massena forçarem as Linhas de Torres, foi o multissecular tesouro transportado solenemente para a Sé, sendo exposto no altar-mor todos os primeiros domingos de cada mês.

A 5 de março de 1811, Massena, depois de ter cometido com a sua gente os roubos, os desacatos e atrocidades conhecidas, abandona Santarém e, perseguido pelas forças do exército anglo-luso, retira-se para o norte, sendo derrotado por Wellesley no Sabugal e obrigado a atravessar a fronteira.
Livres dos franceses, logo os escalabitanos trataram de reaver o seu Santo Milagre, mas os lisboetas não queriam tal restituição. O patriarca pretendia entregar a relíquia aos seus legítimos donos; mas temia que algum tumulto trouxesse funestas consequências. Também era boa a vontade das autoridades civis e dos Governadores do reino. Temia-se, no entanto, a revolta do povo, que ameaçava opor-se por todos os modos à saída do Santo Milagre.
Oito meses durou esta polémica: Houve troca de ofícios, conferências e outras tentativas, todas infrutíferas, até que, na manhã de 30 de novembro aparece em todas as esquinas das ruas de Lisboa o seguinte anúncio:

NOTÍCIA AO PÚBLICO

Um oficial do exercito britannico, tendo apostado 500 libras sterlinas, que há de passar a travessa do rio Tejo, na segunda-feira que vem, á uma hora depois do meio dia, em um par de botas de cortiça, principiando o seu passeio pela torre de Belem, e d’hai á Torre Velha.
Estas botas são de uma construção admiravel e curiosa: foram inventadas pelo mesmo oficial que faz o passeio.
Lisboa
Na oficina de Joaquim Thomaz de Aquino Bulhões
1811
Com licença do desembargo do paço.[i]

Este anúncio despertou grande interesse e toda a cidade de Lisboa correu a Belém para ver o homem das botas.

Tudo estava de feição. O dia estava ameno e aprazível para se fazer tão extraordinária demonstração, milhares de pessoas cobriam as praias do Tejo a fim de admirarem o passeio aquático do engenhoso e destemido oficial inglês.
Desde manhã cedo que os lisboetas se dirigiam, a pé ou utilizando os mais variados meios de transporte, para o local onde havia de se realizar a grande prova. Ao meio-dia já não se podia romper da Junqueira até Algés e nos montes do Lazareto via-se igualmente muita gente que ali se juntara para o insólito espetáculo. No rio viam-se também muitas embarcações. Lisboa ficara despovoada.
À uma depois do meio-dia o rapazio começou a gritar: «É agora! É agora!»
Os olhares concentram-se no areal junto à Torre de Belém. Aumenta a ansiedade. Será aquele?... não será?... Passou a uma, passaram as duas horas, e nada.
«É agora! É agora!»
Todos se esticavam para ver melhor, abriam os olhos para não perder nada; mas era rebate falso. Três, três e meia, quatro horas… e nada! O público desespera.
Cai a tarde, vem a noite; vem o desânimo; começa o regresso a Lisboa. Foi a debandada sem que houvesse, ao menos, notícia do homem das botas. Quem era… onde estava.
Entretanto, nas imediações da Sé, corre a notícia que a Sagrada Partícula do Santo Milagre fora levada para bordo de uma falua que a transportava caminho de Santarém, acompanhada do patriarca até ao Sabugueiro.
No outro dia toda a Lisboa reconheceu que caiu no logro: fora atraída para Belém a fim de não impedir que o Santo Milagre regressasse à origem.
Enquanto milhares de lisboetas enchiam as praias do Tejo, metiam os escalabitanos a relíquia num barco e fugiam com ela, remando toda a força pelo rio acima, chegando nesse mesmo dia a Santarém.
Ainda hoje os lisbonenses esperam pelo homem das botas.

Fontes:

Padre Ignácio da Piedade e Vasconcelos, História de Santarém Edificada, 1ª Parte, Livro II, Cap. II, págs. 236/43 e Cap. V, págs. 251/55.
Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, Vol. 4, 362/63 e Vol. 8, págs. 477/79

[i] Também se supunha que (e é muito provável) os lisboetas não se opunham à saída da Santa Partícula; mas que os escalabitanos fingiram um medo que não tinham, para se livrarem da grande despesa que tinham de suportar na condução da relíquia com a devida pompa e majestade.

quarta-feira, 12 de março de 2025

S. GONÇALO DE AMARANTE

Nascido por volta de 1187 e falecido em 10/01/1262, de uma família de nobre linhagem, este sacerdote dominicano português goza de uma grande devoção popular que se irradiou no norte do país, sendo tradicionalmente invocado como S. Gonçalo de Amarante, embora apenas tenha sido beatificado.
Os seus primeiros estudos, como era costume à época, foram-lhe ministrados por um sacerdote, tendo depois, sob a proteção do arcebispo de Braga, cursado as disciplinas eclesiásticas na escola-catedral de respetiva Sé arquiepiscopal, acabando ordenado sacerdote e nomeado pároco de S. Paio de Vizela.
Devido ao seu ardente desejo de visitar os túmulos de S. Pedro e S. Paulo e os lugares santos da Palestina, obteve licença e partiu em peregrinação, passando por Roma e depois Jerusalém, demorando-se 14 anos, sendo substituído na sua paróquia por um abade seu sobrinho.
Afirma-se que no seu regresso, este sobrinho, além de o não aceitar e não reconhecer como o legítimo pároco, ainda o escorraçou, provando ao arcebispo de então e mediante falsidades, que o padre Gonçalo falecera, obtendo assim a nomeação como pároco da freguesia.
Resignado com a atitude do sobrinho, partiu pregando o evangelho, indo até às margens do rio Tâmega.
No local onde hoje se ergue o Convento de S. Gonçalo, Amarante, diz tradição que ergueu uma pequena ermida com a invocação de N. S.ª da Assunção, aí se recolheu e, como eremita, consagrou o seu tempo à oração e penitência, indo, de quando em vez, pregar nos arredores. Passou depois ao Convento da Ordem dos Pregadores, em Guimarães, obtendo o hábito e, feito o noviciado, admitido à profissão religiosa.
Durante a sua vida terá operado muitas conversões não se esquecendo de promover o bem-estar social do povo em vários aspetos. A construção de uma ponte em granito sobre o Tâmega, para a qual angariou pessoalmente donativos nas terras circunvizinhas e alcançando dos moradores mais abastados avultadas ajudas, foi uma das suas mais relevantes ações e o povo lhe atribui muitos milagres ligados a esta construção.
Gonçalo viveu ainda mais alguns anos dedicados à oração e pregação. O seu corpo foi sepulto na ermida que ergueu, continuando muitos milagres a serem atribuídos à sua interseção. A primitiva ermida foi depois substituída por uma igreja e, em 1540, D. João III determinou sobre esta erguer o grandioso templo que é monumento histórico da cidade de Amarante.
São várias as lendas relativas a S. Gonçalo de Amarante e, se S. António é o “santo casamenteiro”, a S. Gonçalo se lhe atribui o epíteto de “casamenteiro das velhas”, com origem na freguesia que paroquiava, S. Paio de Vizela.
Tal lenda terá dado origem da cantiga popular: S. Gonçalo d’Amarante, / Casamenteiro das velhas, / Porque não casais as novas? / Que mal vos fizeram elas? Etc.
Na igreja do extinto Convento de S. Gonçalo, Igreja Matriz de Amarante, existe a estátua de S. Gonçalo do século XVI, com a sua famosa corda à cintura que, segundo a crença popular, “as encalhadas” deviam puxar três vezes, para pedir um casamento ao santo. Esta estátua está colocada num pedestal alto, com a recomendação de que não se puxe a corda, para que não caia o santo em cima.

Eis a lenda:

Ao percorrer a freguesia na sua faina pastoral, encontrou Gonçalo uma paroquiana já velha e pobre, que só inspirava compaixão. Dirigiu-lhe a palavra, perguntando porque não havia ela de casar (era solteira), para ter quem a amparasse.
Tão estranha pergunta deixou a velha atónita e não soube responder.
“Ao primeiro homem que encontrares, diz o padre, fala-lhe em casamento”, e continuou o seu caminho.
A mulher ia pensando no que o pároco lhe havia dito e, poucos passos andados, vê um jovem, filho de uma das primeiras casas da freguesia. Avistando-o, rompeu às gargalhadas.
Aturdido com as risadas da velha, o mancebo quis saber a razão, e a velha lhe falou nas palavras anteriormente ditas pelo abade.
“Tudo pode ser, respondeu o jovem, ninguém diga desta água não beberei”.
Poucos dias depois a paróquia assistia ao casamento da pobre velha com o rico proprietário, unidos e abençoados pelo santo abade.
As bênçãos do céu, diz a lenda, caíram naquela casa, pois o sábio governo da sua nova dona fez com que prosperasse e aumentasse consideravelmente.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gon%C3%A7alo_de_Amarante

https://viagens.sapo.pt/viajar/viajar-portugal/artigos/sao-goncalo-de-amarante-os-segredos-de-uma-igreja-marcada-por-balas-de-canhao
Portugal Antigo e Moderno, vol. 12, pág. 1967.

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Agualva, – Sintra e D. Domingos Jardo

«O povoamento do território da freguesia remonta à conquista Cristã de Lisboa e Sintra aos Mouros, em 1147, por D. Afonso Henriques. A primeira referência conhecida surge nas inquirições Afonsinas de 1220.
No século XII, “Agualva” e Cacém já eram povoadas. O curso da ribeira das Jardas ou da Água Alva demarcavam então os limites administrativos e paroquiais. Agualva e outros lugares da margem esquerda da Ribeira faziam parte da freguesia de Belas, enquanto Cacém, São Marcos e outros lugares da margem direita estavam integrados no termo de Sintra e faziam parte da freguesia de Rio de Mouro.
Note-se que Agualva, enquanto lugar da freguesia de Belas era lugar conhecido por Jardo, o que levou o célebre Bispo de Lisboa, D. Domingos, por ter nascido ali, a apelidar-se de Jardo.
Nos séculos seguintes expandiu-se o povoamento e a ocupação do território com o aparecimento de várias quintas solarengas (Quinta da Barroca, Quinta da Fidalga, Quinta do Tojal, etc.). No final do séc. XVIII Agualva-Cacém teria cerca de 450 habitantes e em meados do séc. XIX cerca de 500. A 3 de Junho de 1709 é dado alvará à feira de Agualva, uma das mais antigas da região saloia, com o objetivo de manter a ermida de Nª. Sra. da Consolação.
Em abril de 1887, com o estabelecimento da ligação ferroviária entre Lisboa e Sintra, veio o desenvolvimento económico e o aumento demográfico. A ligação por caminho-de-ferro marca, a partir daí, o destino de Agualva-Cacém, deixando para trás tempos em que a ribeira das Jardas fertilizava as terras e movia as azenhas, oferecendo-se aos banhos da miudagem, aos amantes da pesca e aos piqueniques das famílias em férias. (…)» (https://www.jf-agualvamirasintra.pt/a-freguesia/origemhistoria/)

Segundo o Diccionario Geografico do padre Luís Cardoso, Agualva é «Lugar na Província da Estremadura, Patriarcado de Lisboa e Termo da Cidade de Lisboa, Comarca de Torres Vedras, Freguesia de Nossa Senhora de Misericórdia de Belas: tem trinta e oito vizinhos com sua Ermida dedicada a N. Senhora da Consolação, Imagem milagrosa e de muita romagem no mês de Maio. Há outra Ermida dedicada a N. Senhora do Carmo, de José Ramos da Silva, Provedor da Casa da Moeda.»
Agualva era, antigamente, um pequeno lugar chamado Jardo, ou Jarda, situado na margem esquerda da Ribeira das Jardas, de águas puras e cristalinas, e, por isso, supõe-se, os romanos lhe chamaram “Aqua Alba”, nome que, por corrupção, derivou para Agualva.
No que diz respeito ao topónimo ribeira da Jarda, ou Jardas, conta uma lenda que após a conquista de Lisboa aos mouros, D. Afonso Henriques terá agraciado um cruzado inglês pela sua participação nas lutas, recompensando-o com umas terras atravessadas pela ribeira. O cruzado mediu-as utilizando a medida inglesa, a jarda, admitindo-se que possa vir daí a denominação.
Esta ribeira nasce a leste de Sintra, na Serra da Carregueira (Almornos) e vai desaguar no Tejo, próximo de Oeiras (praia de Caxias), tomando diversos nomes, segundo as povoações por onde passa, ao longo do seu percurso de cerca de vinte quilómetros: das Jardas, da Jarda ou do Jardo, do Papel, de Barcarena, dos Ossos, etc.
Ao longo da história, a Ribeira das Jardas separou as povoações das suas margens. Na margem esquerda Agualva e na margem direita o Cacém. Sendo já terras cristãs, as povoações das duas margens continuaram divididas administrativamente. De acordo com as memórias paroquiais de 1785, Agualva pertencia à freguesia de Belas, enquanto que o Cacém pertencia à de Rio de Mouro. Segundo uma lenda, o nome de Rio de Mouro se deve à bravura dum mouro de nome Albaraque, que heroicamente se terá batido contra os cristãos e que tingiu as águas do rio com o seu sangue, passando o sítio onde morreu a chamar-se Rio de Mouro.
Em Agualva, já na Idade Média e na margem da Ribeira das Jardas, se situavam duas importantes quintas contíguas: a da Barroca e a quinta dos Loios, que ainda sem esse nome se vai tornar célebre, por nela provavelmente ter nascido, no início do século III, o famoso arcebispo de Lisboa, D. Domingos Jardo. As duas margens desta ribeira eram aproveitadas para cultivo e foram povoadas, pelo menos a partir do século XII, formando quintas, ou “quintãs”, no dizer de então. Nas partes baixas eram as hortas e os pomares, e nas encostas os olivais. Para rega, socorriam-se das fontes dos afluentes e de numerosas azenhas no rio. Os primeiros moradores talvez tenham sido os mouros, fugidos de Lisboa para a periferia e que povoaram e cultivaram as “terras saloias”.
As duas povoações uniram-se numa única freguesia civil em 1953, passando a denominar-se Agualva-Cacém, fazendo parte desta as povoações de São Marcos e Mira Sintra.
Agualva-Cacém constituía uma única paróquia, com sede na antiga capela de N. S. da Consolação que, na sua primeira fundação, data do século XVI. Mais tarde, a partir desta matriz foram criadas três circunscrições eclesiásticas: Agualva, Cacém e Mira Sintra. O lugar de São Marcos pertenceu, até 1953, à freguesia e paróquia de Rio de Mouro, passando para Agualva-Cacém, quando esta freguesia foi criada.
Ao longo dos séculos, com o aparecimento de várias quintas, expandiu-se o povoamento e a ocupação do território nas duas margens da Ribeira. No primeiro quartel do século XVII, em resultado de uma petição a D. João V., feita pela Irmandade de Nª Sª da Consolação de Agualva, é dado alvará à Feira de Agualva, uma das mais antigas da região Saloia, com o objetivo de manter a ermida da santa.
O estabelecimento da ligação ferroviária entre Lisboa e Sintra, no último quartel de século XIX, veio incrementar o desenvolvimento económico e o aumento populacional. O caminho de ferro marca e destino de Agualva-Cacém, deixando para trás os tempos em que a Ribeira das Jardas fertilizava as terras e movia as azenhas. A freguesia transforma-se numa das áreas suburbanas da grande Lisboa, dando origem a uma explosão ao nível da construção civil, traduzida numa urbanização onde os níveis de qualidade de vida nem sempre foram tidos em conta.
Elevada a vila a 20 de setembro de 1985 e a cidade em 12 de julho de 2001, a antiga freguesia de Agualva-Cacém foi administrativamente desdobrada em quatro freguesias: Agualva, Cacém, Mira Sintra e São Marcos, no dia 3 do mesmo mês.
Após a elevação a cidade, esta passou por vários projetos de beneficiação por parte da Câmara Municipal de Sintra, mas principalmente por parte do Programa Polis (Projeto para a requalificação das cidades europeias), com o objetivo da valorização do património histórico ou natural e a sua reintegração na própria cidade, o qual mudou radicalmente a estrutura central de Agualva-Cacém e melhorou substancialmente o seu estatuto de cidade, que assim passou a dispor de um parque urbano (Parque linear da Ribeira das Jardas).
Atualmente a cidade do Cacém é constituída por duas freguesias, Agualva e Mira Sintra, e Cacém e São Marcos, e é o reflexo de um dos mais progressivos centros urbanos da área metropolitana de Lisboa e um dos maiores centros populacionais do país.

♗ D. Domingos Anes Jardo

Neste lugar, outrora chamado Jardo, ou Jarda, hoje conhecido com o nome de Agualva, nasceu o arcebispo D. Domingos Anes Jardo, que da sua terra adotou o sobrenome de Jardo.
São pouco conhecidas as origens familiares e sociais de D. Domingos Anes Jardo e desconhece-se a data do seu nascimento. Há relatos em que se menciona as suas origens humildes. O relato de um encontro emotivo do então bispo de Évora com sua mãe, na sua aldeia de origem, parece realçar uma longa, embora distante, proteção dispensada à sua família. Dados que perecem difíceis de confirmar, assim como os dados sobre os primeiros anos da sua vida. É mencionada uma lápide existente no mosteiro de S. Vicente, alusiva à sepultura de sua mãe e de sua avó, onde constaria a data de 1286, e que poderia ser a data da transladação dos corpos para o dito mosteiro, sendo já D. Domingos bispo de Évora.
Acredita-se também que D. Domingos Jardo tenha crescido à sombra e proteção de seu tio, Martinho Miguéis, prior de S. Jorge de Coimbra, e que, dada a ligação do mosteiro de S. Jorge à corte desde os reinados dos primeiros monarcas, se explique a proximidade que D. Domingos parece protagonizar a D. Afonso III. De facto, a partir do final do século XIII, o seu nome começa a ser referido na documentação régia.
Muitas das vezes a entrada de um clérigo, a quem o nascimento nobre não distinguia particularmente nos círculos políticos régios, era feita através da influência de um parente próximo, noutros casos o saber e a distinção demonstrada por uma forma superior poderiam suprir a ausência de um enquadramento familiar. O percurso de D. Domingos Jardo poderá ter beneficiado de vários destes fatores.
Estes processos de ascensão social que parecem centrar-se, na sua maioria, em torno das carreiras eclesiásticas, refletem, no contexto da sociedade medieval, o papel da Igreja enquanto reguladora do espaço social e também, enquanto instituição, o garante de alguma mobilidade social e, por conseguinte, a estabilidade das hierarquias dominantes.
Uma tradição pouco documentada, mas veiculada por diversos autores, colocam-no como estudante na Universidade de Paris, para onde teria ido para ser formado em Direito Canónico, mas também se afirma, com base na constante menção a um Domingos Anes, identificado como cónego de Évora num testamento feito em Salamanca, com a indicação do seu nome num grupo de eclesiásticos dados como testemunhas do documento, que D. Domingos teria estudado em Salamanca.
Tendo em conta a atração exercida pela Universidade de Salamanca sobre os escolares de Portugal, é possível que que aí tenha efetuado os seus estudos, mas verdade seja que poucos ou nenhuns são os dados que permitam afirmar que D. Domingos Jardo tenha adquirido uma formação superior.
A primeira referência relativa ao percurso eclesiástico de D. Domingos Anes, indica que teria tido uma conezia (dignidade de cónego) na diocese eborense e, pelo menos desde 1270, o seu nome faz parte de um grupo de clérigos do rei que testemunham muita documentação de D. Afonso III. Em 1272 seria apresentado, pela mão de Afonso III, para a igreja de Penas Róias, no Mogadouro.
O título de clérigo do rei, que o acompanhou até ser nomeado bispo de Évora, marcou não só o desempenho de funções específicas, mas atestava o favorecimento de que era objeto por parte do rei e a existência de uma relação de dependência do poder real. Apesar de não ser um estatuto exclusivo, face a um grupo numeroso clérigos contabilizados ao longo do reinado, a verdade é que este grupo ganhou centralidade e dimensão pela forma como surgem recorrentemente como testemunhas ou confirmantes dos documentos régios exarados e, no desempenho deste lugar, muitos deles irão encontrar uma plataforma para a posse de outros benefícios.
Apesar disso, os anos 70 do século XIII representaram um período muito conturbado nas relações entre D. Afonso III e o clero secular. A partida para a Cúria, com exceção dos bispos de Lisboa e Évora, da maior parte dos bispos portugueses, em 1267, vai dar início a uma longa fase de conflito, marcada com momentos de maior ou menor oposição e acompanhada, por um longo período, do interdito (excomunhão) ao qual o reino ficou sujeito. Ainda assim, neste contexto de oposição, D. Domingos Anes Jardo continuará a surgir em muitos documentos como testemunha e será uma presença atenta em muitos dos momentos que irão marcar essa época.
A vinda a Portugal de frei Nicolau, como enviado do papa João XXI, incumbido de tentar resolver o conflito entre D. Afonso III e os bispos, é um dos momentos melhor documentados. Frei Nicolau foi presença assídua na corte entre os primeiros meses de 1277 e agosto do mesmo ano. As atas desta legacia constituem documento chave para o conhecimento de Afonso III e, também, basilares para a análise política no relacionamento com a Igreja. O resultado dos inúmeros encontros entre o legado papal e o rei ficaram muito aquém do que seriam as pretensões da Igreja, como ficaram igualmente aquém das pretensões que o monarca pretendia obter.
Estes encontros eram presenciados por um numeroso grupo de nobres e de clérigos, entre os quais D. Domingos, cujos nomes vêm mencionados nas atas. O então clérigo e conselheiro do rei, identificado como tal nesta documentação dos anos finais de D. Afonso III, revela uma crescente proximidade ao rei, testemunhando alguns dos momentos de maior confronto entre o monarca e o enviado do papa, nos quais a afirmação do poder régio, quer pela via do adiamento estratégico das resoluções, quer pela recusa em dialogar, se impõe. E se a presença, aparentemente incontestável, junto ao monarca, parece colocá-lo do lado oposto dos prelados exilados em Roma, a dureza e ferocidade que perpassam pelo relato do legado do papa não terão sido estranhas nem indiferentes ao clérigo que se formava ao serviço do rei.
Surpreende-o a morte de D. Afonso III e é com estatuto de conselheiro que terá feito parte do grupo de eclesiásticos que acompanharam o monarca na última fase da sua vida, tendo estado presente ao arrependimento do rei e à exortação feita a D. Dinis para que cumprisse as suas últimas disposições em relação à Igreja, explicando a aparente continuidade de carreira que ultrapassa a mudança de reinado e encontra clara e pacífica sequência nos primeiros anos do reinado de D. Dinis.
Contrariamente à opinião de alguns autores, D. Domingos Jardo terá sido nomeado chanceler, mas apenas em 1281, e manteve este título até cerca de 1290/91, aliás, em 1284, D. Dinis reitera a doação já feita da chancelaria, com o objetivo de que não surgissem dúvidas sobre a posse legitima desse lugar e aproveita esta confirmação para acentuar que lhe dá igualmente a posse de todos préstamos (impostos) ligados à chancelaria, à semelhança do que tinha sido detido pelo chanceler de D. Afonso III.
Em 1284 D. Domingos Anes Jardo foi escolhido para a diocese de Évora e aí permaneceu até 1289. Em outubro deste ano é requerido pelo cabido de Lisboa, numa eleição disputada com D. Pedro, cónego de Coimbra. D. Domingos tem agora o favor do papa, que o transfere para a diocese de Lisboa (7 de outubro), onde permaneceu até à sua morte, enquanto o seu opositor, D. Pedro, é nomeado para Évora.
Com esta transferência o papa fechava um ciclo na vida de D. Domingos Anes Jardo, assegurando-lhe o lugar de prelado numa diocese que já no início dos anos 80 tinha procurado sem sucesso após a morte de D. Mateus (1282). Em maio de 1286, o papa Honório IV tinha preferido Estevão de Vasconcelos, deão (o que preside ao cabido) de Braga e capelão pontifício, acabando D. Domingos por assumir o bispado de Évora.
Pelo meio tinham ficado algumas disputas, ou pelo menos expetativas, por parte de D. Domingos. Possivelmente eleito nos últimos meses de 1282 ou primeiros meses de 1283, em dezembro deste último ano, D. Domingos é identificado na chancelaria régia como bispo eleito de Lisboa, pelo menos entre fevereiro de 1283 e janeiro de 1284.
Estas referências na chancelaria revelam o normal e quase sempre longo processo de confirmação papal e a aparente concordância do rei com esta eleição. D. Dinis veria com bons olhos a eleição do seu chanceler para bispo de Lisboa, pois esta escolha seria a consagração de uma carreira eclesiástica junto do poder régio, colocando no comando da estrutura diocesana alguém em quem devia inevitavelmente confiar.
Porém a decisão inicial da papa não foi neste sentido. A morte do bispo de Lisboa, D. Mateus, aconteceu em 1282, e só em 1286 o papa Honório IV nomeia para o lugar vago D. Estevão Anes de Vasconcelos, deão de Braga e capelão pontifício, ficando D. Domingos em Évora, como se diz atrás.
Na nomeação de D. Estevão, o papa refere uma reserva feita pelo anterior pontífice, Martinho IV, pelo facto de D. Mateus ter falecido na Cúria, legitimando assim a sua decisão. Com esta nomeação talvez o papa tenha preferido favorecer alguém com carreira ou proximidade a Roma, como o seu título de capelão revelava, assim como é possível entrever nesta escolha a influência do ambiente toldado pela dissensão (desavença) que continuava a marcar as relações do poder régio com o clero e com Roma desde 1267, com a saída da maior parte dos bispos portugueses para a Cúria e a intenção de não colocar em dioceses centrais eclesiásticos cuja lealdade se antevia mais em função do rei do que da cúria. O facto de nesta nomeação não ter sido enviada ao rei a usual carta da recomendação dos novos bispos, e que acompanhava as missivas dirigidas ao cabido e à diocese, demonstra a animosidade existente nas relações entre a realeza de Portugal e o papado e como o papa procurava pressionar D. Dinis a avançar com o processo de conciliação.
Qualquer que fosse a razão, a verdade é que a partir de 1284 D. Domingos surge como bispo de Évora e o bispado de Lisboa permanece vago. É de 24 de junho, o primeiro documento régio que o refere como eleito de Évora, embora a sua nomeação seja de 24 de março de 1285 (estaria eleito desde 17 de junho de 1284). A acreditar nestas datas, a chancelaria régia, sob o comando do próprio D. Domingos, não tardou muito a reconhecer o estatuto de eleito de Évora. Caberá precisar que entre a morte do anterior bispo (D. Durando) e a eleição de D. Domingos há um hiato de mais de um ano, tempo decorrente dos trâmites processuais que teriam lugar nesta diocese e sobre os quais pouco se sabe.
Foi um afastamento provisório para D. Domingos Anes Jardo. Nos últimos anos da sua vida viria de novo a conflituar sobre o acesso ao episcopado de Lisboa, mas desta vez com sucesso. Feito bispo de Lisboa em 1289, veio a morrer em 16 de dezembro de 1293.
D. Domingos Jardo instituía, em abril de 1291, o hospital dos santos Paulo, Elói e Clemente, na freguesia de S. Bartolomeu (a), em Lisboa, determinando a manutenção de seis estudantes pobres: dois de Direito e Teologia, quatro de Gramática, Lógica, Filosofia Natural e Medicina. O documento de instituição, à semelhança de outros da época, dispunha com pormenor a organização interna do hospital, as refeições e a roupa que deveria ser entregue a cada um dos moradores no hospital, tem sido objeto de uma particular atenção, dada a sua ligação à história da Universidade em Portugal.
Esta instituição não terá sido a única ou a que originalmente terá feito nas suas casas situadas na freguesia de S. Bartolomeu. Em agosto de 1284 D. Dinis emitia uma carta de proteção ao hospital criado por D. Domingos nas suas casas de Lisboa, em honra de Santa Maria, mãe do Salvador e de Todos os Santos. Mais tarde, em junho de 1285, retornava o rei ao hospital fundado por D. Domingos, mencionando que a sua fundação tinha sido feita por alma de seu pai, D. Afonso III, da sua e da do bispo, pelo que o autorizava a comprar bens destinados ao hospital, contornando as leis de desamortização, e em 1286 doava ao hospital, fundado por alma de seu pai, o padroado da igreja de S. Bartolomeu. Tudo isto aponta para a existência, já em fins da década de 80, de um hospital fundado por D. Domingos Jardo.
Em novembro 1288, era solicitado ao papa Nicolau IV, por um grupo de eclesiásticos, autorização para a utilização das rendas dos mosteiros e igrejas no pagamento dos mestres e doutores que viessem a fazer parte do Estudo Geral a ser criado por D. Dinis, a pedido deste mesmo grupo. Esta autorização foi concedida em 1290 pela bula De Statu Regni Portugaliæ, que autorizava a criação do Estudo Geral e definia os graus que podiam ser concedidos.
É na sequência desta bula que o hospital, anteriormente fundado por D. Domingos, sofre uma assinalável alteração. Invocando a memória de D. Afonso III, a proteção de D. Dinis e procurando responder às preocupações do papa no sentido de ser concedido apoio aos estudantes, D. Domingos Jardo estabelece, em abril de 1291, a obrigatoriedade do apoio a seis estudantes de diferentes áreas e muda o seu orago, dedicando-o aos santos Paulo, Elói, Clemente e a Todos os Santos, doa todos os seus bens à hora da morte e estabelece as condições que devem reger o seu funcionamento. Assim, dedicou 200 libras anuais à manutenção dos seis estudantes pobres, embora de forma desigual; a cada dois estudantes de Direito e Teologia caberia 50 libras e a cada um dos restantes quatro estudantes, 25 libras anuais, pelo prazo máximo de cinco anos. Com estes seis estudantes deveriam ainda viver dez sacerdotes encarregues da celebração diária e outros tantos pobres. Finalmente definiu a entrega da administração do hospital a Afonso Anes, cónego de Évora, o qual viria também a nomear, alguns meses mais tarde, como seu testamenteiro, evidenciando entre ambos uma proximidade e confiança significativas.
Referenciado como um dos primeiros exemplos de uma fundação dedicada ao apoio de estudantes pobres, este hospital beneficiaria nos anos seguintes do apoio papal, como patenteia a bula de Bonifácio VIII (1294-1303) de 1295, que aprova a instituição com a obrigação de manter os seis estudantes pobres, autorizados a pregar e a ouvirem confissões.
O próprio D. Domingos, como bispo de Lisboa, privilegia o hospital, ao qual tinha entregue todos os seus bens antes de ser nomeado como bispo de Évora e de Lisboa, em outubro de 1293, data próxima da sua morte, identificando-o como hospital e mosteiro, e autorizava os estudantes residentes a pregarem e a ouvirem confissões em toda a diocese, realçando que a outorga deste privilégio não implicava a revogação da anterior dádiva de 200 libras para a sua manutenção.
Antes da sua morte, D. Domingos Anes Jardo preocupou-se com a preservação da sua memória e com o destino da sua alma. O testamento, redigido em 1291, reflete claramente essas preocupações.
Nele dispõe de todos os seus bens de raiz que possuía antes de ser bispo de Lisboa em favor do hospital por ele fundado, fazendo seus herdeiros os pobres, os clérigos e leigos que nele habitassem. Escolhe esta instituição como lugar da sua sepultura, como depositária de todos os seus livros, que mereceram particular atenção por parte do testador. Assim, o que mencionava serem os seus livros de Direito Canónico e Civil bem como todas as súmulas, doa a dois parentes: Martim Mateus e Afonso Martins, com a condição de usufruírem deles apenas em vida, retornando ao hospital após as suas mortes. Supõe-se que estes dois parentes estivessem ligados ao ensino de Direito como estudantes. Um outro grupo de livros de Teologia, oriundos da Livraria de D. Durando, seu antecessor em Évora, foi doado diretamente ao hospital. Esta última doação é reveladora dos possíveis laços existentes entre estes dois eclesiásticos, bispos de Évora, talvez forjados ou reforçados nos meandros do serviço régio, dos quais ambos participaram.
D. Domingos deu também atenção à partilha dos seus bens móveis por muitos dos que o tinham servido, assim como pelas instituições religiosas, das quais esperava intercessão pela sua alma. Foram vários os mosteiros e igrejas contemplados, nomeadamente os cenóbios (conventos) de Alcobaça, Santa Cruz de Coimbra e S. Vicente de Fora de Lisboa, assim como para ordens militares. A todos pediu intercessão por sua alma, pela de D. Durando (seu antecessor em Évora), de D. Airas, bispo de Lisboa, e de sua mãe e avó.
Beneficiou ainda os seus familiares, como Pedro e João, identificados como filhos de Urraca, sua parente, assim como os seus criados, legando quantias significativas para obras pias. Privilegiou os pobres, as viúvas dos bispados de Lisboa e Évora, as donzelas pobres e vários hospitais, não esquecendo todos os mosteiros da Estremadura e do Alentejo, aos quais tinha destinado um quinhão particular.
No seu testamento, o eixo do seu trajeto pessoal e eclesiástico assume particular centralidade. Nomeou Paio Domingues, deão de Évora, João Martins, cónego de Lisboa, Afonso Anes, cónego de Évora e Airas Martins, pedindo a todos que atuassem de acordo com o conselho de D. Dinis, prevendo ainda que, em caso de morte de algum dos testamenteiros, este fosse substituído por mestre Bartolomeu, reitor da igreja de S. Bartolomeu de Lisboa.
Ao aproximar-se o seu fim, D. Domingos Anes Jardo reestruturava, através do seu testamento, os círculos pessoais e institucionais que tinham marcado o seu trajeto e construía uma memória da sua vivência.
Conforme o obituário da Sé de Lisboa, D. Domingos Anes Jardo faleceu no dia 16 de dezembro de 1293 e, tanto no mosteiro de S. Vicente de Fora, como na Sé de Coimbra, eram celebrados aniversários por sua alma no dia da sua morte.
Poder-se-á dizer que deixou um longo e linear percurso onde o saber, a lealdade e o serviço ao poder real, assim como a integração nos círculos políticos do final do século XIII, se conjugaram de forma modelar.
(a) Esta freguesia não existe e, segundo apurei, ficaria na atual zona da Mouraria. (“Os velhos hospitais da Lisboa antiga”) https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/obras/RevMunicipal/N10/N10_master/N10.pdf
Fontes:
Dicionário Geográfico ou Noticia Historica, Pdre. Luís Cardoso da Congregação do Oratorio de Lisboa, Academia Real do Numero da Historia Portuguesa, Tomo I, Regia Officina SYLVIANA, e da Academia Real, MDCCXLVII. Biblioteca Nacional de Lisboa. Págs. 73 a 74.
Repositório da Universidade de Évora; Bispos e Arcebispos de Lisboa; Centro de Estudos da Universidade Católica de Lisboa; Domingos Anes Jardo (1289-1293).
Crónica – Dom Domingos Jardo e a Universidade Católica Portuguesa. https://revistas.ucp.pt/index.php/lusitaniasacra/article/view/7808/7600
https://jf-riodemouro.pt/rio-de-mouro/heraldica/
http://www.sintraromantica.net/pt/visitar/rota-do-patrimonio-historico-cultural/106-agualva-cacem/756-ribeira-das-jardas

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Mário Lobo (1912/1937)

Desaparecido nas inundações que assolaram os lugares de Agualva e Cacém.
O desaparecimento, a 20 de novembro de 1937, de Mário Lobo da Conceição, com 25 anos de idade, bombeiro de 3ª classe dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (BVAC),
encerra na sua singularidade, uma das mais insólitas mortes ao serviço dos bombeiros portugueses.
Supostamente arrastado pela fúria das águas (o seu corpo nunca foi encontrado) quando se julga que tentava prestar socorro às vítimas das inundações que naquela data atingiram ambos os lugares das margens da ribeira da Agualva, o infeliz Mário Lobo acabou por ser vítima da sua abnegação. Diz-se supostamente, uma vez que nem bombeiros nem populares testemunharam o acidente, sendo por isso difícil determinar objetivamente as condições do seu desaparecimento. Porém os testemunhos divulgados pela imprensa da época parecem fazer sentido, sustentando até hoje a única versão existente sobre a morte de Mário Lobo.
Na noite do temporal, segundo a informação publicada no “Diário de Notícias do dia 23, Leonel Baptista, um miúdo de 12 anos, terá visto um vulto na cheia, chamando a atenção do seu avô para o facto. Na edição do dia 25, o mesmo jornal refere:
“Continua sendo assunto de todas as conversas o desaparecimento do bombeiro voluntário desta localidade, Mário Lobo, que as águas turvas e traiçoeiras tragaram quando procurava servir uma causa que há seis anos se dedicava. Corre agora uma nova versão que é a que mais se aproxima da forma como se teria dado o desastre.
O infeliz Mário Lobo não quis regressar ao quartel no ‘pronto-socorro’ e teria to­mado a rua António Nunes Sequeira, por ser o trajecto mais próximo da sua casa. Mas, ao atingir o cruzamento desta com a rua da Ponte Nova, ouvira os gritos de so­corro que partiam da casa de Manuel Pei­xinho, que estava a ser invadida pela água do rio.
O destemido bombeiro ter-se-ia desviado, para aquele local, a fim de ali prestar os socorros, tentando atravessar a ponte que o separava da casa, sendo então arrebatado pela corrente, que era fortíssima. Supõe-se ainda que nesse momento se tivesse apa­gado a iluminação pública.
Chegou-se a esta conclusão por declarações da Sr.ª D. Carinte Pombo, que da sua janela viu um vulto de capa vestida tomar esta direção. Quando foi dado o sinal de alarme, o desaparecido estava a trabalhar em casa do Sr. António Paula Lopes. Cor­rendo ao quartel, tomou uma viatura, não chegando a ir a casa fardar-se para se não demorar. Foi, depois de cinco horas de ár­duo trabalho, quando ia alimentar-se para refazer as forças, a fim de voltar a trabalhar pelo bem alheio, que encontrou a morte.”
Da edição do “Diário de Lisboa” do dia 21, da notícia referente ao temporal em Lisboa e arredores, foi digitalizada parcialmente a parte das notícias referentes a Agualva-Cacém, onde se assinala o desaparecimento de Mário Lobo, mas identificado como Manuel Lobo:

Reproduz-se aqui (Arquivo dos Bombeiros Voluntários de Agualva – Cacém) o testemunho do saudoso Comandante Artur Lage, lido ano após ano, durante as comemorações de aniversário da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Agualva Cacém, junto ao monumento erguido em memória do abnegado Mário Lobo e perante o corpo de Bombeiros.
“20 de Novembro de 1937”
O dia surge chovendo copiosamente, com o céu carregado de nuvens ameaçadoras. Tal ameaça, confirma-se, porque pouco depois a chuva torna-se torrencial, acompanhada de violenta trovoada que se manteria por todo o dia.
Ás 11 horas aproximadamente, regista-se a primeira chamada para inundações que se verificavam no Bairro Serpa Rosa, situado junto ao túnel de passagem inferior à linha férrea, abrangendo o local onde hoje se encontra o posto, dos serviços Médico – Sociais, a Cervejaria Marisqueira do Túnel, etc. Saiu do Quartel o Pronto Socorro, único existente, de cuja guarnição eu e o Mário Lobo, fazíamos parte além de outros, sendo comandados pelo chefe Gomes Fragoso.
No local existia uma vivenda grande, sendo as restantes habitações casas baixas. Começamos por desobstruir uma regueira existente, a fim de que ela recebesse as águas que inundavam as habitações. Trabalho em vão, porque pouco tempo depois os dois rios existentes e que se juntam no Cacém de Baixo, passando a Ribeira das Jardas, galgavam as suas margens, a ponte não dava vazão, era destruída e dava-se a enorme cheia.
A rua principal do Cacém tinha configuração diferente da atual. Um muro alto era a vedação de uma quinta, ladeava a estrada desde o rio à Casa Ferreira, não existindo os atuais prédios do Café Central, Capri, Farmácia etc. esta rua transformou-se num rio com violento caudal que nos obrigava a andarmos amarrados com espias para não sermos arrastados. Agora os nossos socorros limitavam-se a retirar pessoas para andares superiores e outros lugares que oferecessem segurança. Nada mais se podia fazer face á violência da cheia.
Entretanto a chuva diminuiu de intensidade, as águas baixaram de nível e passamos a prestar assistência às casas inundadas. Móveis e outros utensílios, roupas e calçado, haviam saído pelas janelas e portas arrombadas pela violência das águas. Os prédios mais antigos foram o edifício onde hoje está a Junta de Freguesia, a central dos telefones ao seu lado e uma casa de pasto mais adiante. Fez-se tudo o que era possível relativamente ao apoio aos seus proprietários.
Tudo mais calmo, já de noite, porque o pessoal se encontrava esgotado, o Chefe Fragoso, deu ordem para voltarmos ao Quartel, a fim de nos alimentarmos e mudarmos de roupa. A Corporação era jovem e pobre e nós não disponhamos de equipamento de proteção. Vestíamos apenas fato-macaco e calçado normal. Alguns que possuíam casaco impermeável, era de sua propriedade.
Quando a viatura no seu trajeto passava próximo da casa dos pais de Mário Lobo, este pediu ao Chefe para ficar ali por ser mais próximo do que indo ao Quartel. Devidamente autorizado, desceu e nós continuámos, mas ainda no percurso, a tempestade aumentava de intensidade e quando chegámos ao Quartel as solicitações eram muitas, constando entre elas o pedido para umas casas existentes na margem norte do rio que atravessava Agualva, nas proximidades da hoje atual Rua Mário Lobo e onde os habitantes em altos gritos pediam socorro. Para ali seguira já pessoal a pé dada a proximidade prestando os devidos socorros e a viatura seguiu novamente para o Cacém de Baixo. É neste momento que segundo averiguações, tudo indica que a tragédia se consumou.
Mário Lobo que passava junto à margem oposta de onde se ouviam os gritos de socorro, tentaria atravessar o rio por uma rudimentar ponte sem amparos que ali existia, e que ele muito bem conhecia, o que contribuiu para que se aventurasse, e fosse arrastado pela violência da corrente que além da água, incluía os mais diversos objetos, alguns dos quais de grande porte.
Porém, só tivemos conhecimento da sua falta, quando seu pai João Lobo, me procurou em casa, já eu descansava perguntando-me pelo filho, porque não regressará à sua residência.
Surpresa e preocupação!
Estabelecemos contactos e de facto ninguém tinha visto Mário Lobo, na Segunda presença na cheia.
Imediatamente ao alarme dado por seu pai, fizeram-se durante o resto da noite, diligências para saber do seu paradeiro, inclusivamente nos locais onde havíamos atuado. Logo que amanheceu efetuaram-se pesquisas ao longo do rio, tendo sido encontrado o seu casaco impermeável preso numa grande raiz de uma árvore que se encontrava no leito do rio, um pouco abaixo da Tinturaria Cambournac .O casaco encontrava-se preso à árvore pela aba e tinha as mangas voltadas do avesso, o que para nós significava que o corpo de Mário Lobo passara naquele local e que o casaco ao ficar preso, se lhe despira, continuando o corpo o curso. Não restavam dúvidas.
Mário Lobo fora tragado pelas águas revoltas da cheia e a tristeza invadia-nos.
Seguiram-se dias de angústia. No dia 1 de Dezembro seguinte, já convencidos de que Mário Lobo perdera a Vida, mas na esperança de reaver o seu corpo para que lhe fossem prestadas as devidas homenagens, foram efetuadas pesquisas em profundidade, com a participação de Corporações congéneres, ao longo de toda a Ribeira das Jardas, extensiva às ruas margens, lagoas e desmuramentos, etc, etc, até Caxias, local onde desagua no rio Tejo, sem resultados positivos. Apenas foi encontrado o seu cinturão de cabedal, partido e preso a uns silvados em local do rio quando passava na Fábrica da Pólvora, em Barcarena.
Mário Lobo desaparecera para sempre!”

As obras de melhoramento, nomeadamente nas margens da ribeira das Jardas, projeto «Pólis Agualva-Cacém 2001/2009», modificaram toda aquela área e vários edifícios aí implantados já não existem.
Nos anos 60, o nome do bombeiro Mário Lobo passou a figurar na toponímia da cidade de Agualva-Cacém, numa rua situada nas imediações da presumível tragédia.
Fontes
http://bombeirosdeportugal.pt/Memoria/mario-lobo-nome-de-um-heroi-obscuro=150
http://bombeirosdeagualvacacem.blogspot.com/2011/11/desaparecido-nas-inundacoes-de-20-de.html

domingo, 21 de maio de 2023

Joana da Silva – Heroína de Portugal

Na galeria de heróis da História de Portugal figuram apenas nomes masculinos. Se por um lado se compreende, pois, o homem é geralmente mais forte mais forte fisicamente e, portanto, mais apto para o combate, não deixa de ser irónico que os heróis são geralmente aqueles que em razão da sua posição social comandavam os exércitos, e o seu heroísmo dependia dos que verdadeiramente lutavam, até porque nem sempre o comandante marchava à frente dos seus homens, porque se o fizesse, corria o risco de ser dos primeiros morrer e lá ficava o exército sem comando. Quero com isto dizer que a vitória ou derrota numa batalha estava dependente, entre vários fatores, da bravura, ou falta dela, daqueles que realmente combatiam.
Ora, se aqueles heróis não combatiam, mas dirigiam os exércitos, por que não eram esses exércitos comandados por mulheres? Em inteligência e artes de dissimulação parece que são até superiores aos homens. Talvez até houvesse menos guerras (ou mais, sabe-se lá) na história dos povos, dado que os homens de antanho não quereriam ser comandados por mulheres, recusariam ir combater e assim o mundo viveria pacificamente.
Isto que estou para aqui a dizer até parece fazer sentido, mas, se olharmos a nossa História, verificamos que também tem (poucas, é certo) heroínas: Deu-la-Deu Martins; Antónia Rodrigues, natural de Aveiro, a mulher-soldado e o terror dos mouros; a Padeira de Aljubarrota; a Inês Negra, de Melgaço e a Maria da Fonte.
A história destas mulheres anda envolvida em lendas populares, numa mistura entre o que é suposto ser real e o que a tradição oral foi contando ao longo dos tempos, onde os pormenores variavam de contador para contador, confundindo-se a história com estória.
Mas, se a lenda das mulheres acima mencionadas faz mais ou menos parte do nosso imaginário, já a história, ou estória, de Joana da Silva não aparece na galeria das nossas heroínas, pelo que não resisto a contá-la aqui, segundo o que li.
Joana da Silva nasceu pelos anos de 1530, em Peniche. Era uma mulher cheia de força e com uma coragem de leão.
Estava esta mulher na casa dos 50 anos, quando reinava em Portugal o neto de D. Manuel I, o Filipe II de Espanha e cognominado Filipe I de Portugal.
Apesar da idade, esta mulher era tão vigorosa nas suas forças e de tal ânimo, que o mais varonil dos homens lhe cedia, sem controvérsia, toda a primazia. Envergonhava-se até de lutar contra um só e até mesmo contra dois o seu brio não admitia paralelismos. Era mesmo capaz de enfrentar sozinha quatro ou cinco.
Numa discussão com três castelhanos, de que muito se aborrecia, deixou-os em tal estado, que foram precisos muitos tempos para se restabelecerem.
A outro que intentou ofender a sua honra, desonrou-o com uma grande bofetada, e, porque este se quis vingar da “insolência”, recebeu dela tal tratamento que ficou às portas da morte.
Para lá destas, outras façanhas idênticas esta guerreira operou contra os espanhóis.
Desconhece-se a data do seu falecimento.

(Leal, Pinho. Portugal Antigo e Moderno, volume 6º, pág. 639)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

COMUNICAÇÃO E CULTURA

“Comunicar” quer dizer: dar a conhecer, divulgar, anunciar, informar. Há comunicação sempre que um indivíduo partilha com outro(s) um determinado conteúdo. A comunicação é uma atividade essencial para a vida em sociedade.
Sendo a comunicação o fator mais importante no relacionamento da Humanidade, facilmente se compreende que má comunicação pode acarretar consequências funestas no conserto entre as pessoas.
Passamos a maior parte do nosso tempo a interagir com os outros através da comunicação, é nessa comunicação que influenciamos os seus comportamentos e que satisfazemos as suas e as nossas necessidades.
A comunicação é um processo de criação e recriação de informação, de troca, de partilha, de colocar em comum sentimentos e emoções. A comunicação transmite-se de forma consciente e inconsciente, pelo comportamento verbal e não verbal, de modo mais global pela maneira de agir dos intervenientes.
Pela comunicação chegamos a aprender e compreender as intenções, opiniões, sentimentos e emoções.
A comunicação pode ser vista e interpretada sobre várias perspetivas, no entanto temos de ter sempre presente que a comunicação é a base de todas as relações humanas, daí a importância de comunicarmos bem.
Os fundamentos da comunicação humana suportam-se em formas e métodos diversificados, em que os seres humanos recebem e retransmitem informações, sentimentos e perceções da mais variada índole. Assim, é o quadro de referência simbólico que suporta a transmissão das emoções que não têm tradução evidente na comunicação verbal. Ou seja, estamos a referir a importância da comunicação não-verbal e da perceção que a acompanha. Neste contexto, a opinião pública, traduzida na comunicação pública, é um fator determinante para a consciencialização global de quem a recebe. Assim, podemos compreender que a comunicação não se resume unicamente à informação. Ela transita de forma circular e constante, num intercâmbio de palavras com o intento de informar, em que tanto influencia como é influenciada.
A comunicação requer que, quando alguém esteja a falar, o outro seja capaz de o ouvir. Ser capaz de ouvir com atenção é o reconhecimento concreto da valorização do individuo. Se o ponto de vista expresso for muito importante, levá-lo-á até algum escalão superior. Podemos afirmar que ouvir com atenção já é dizer sim. Se o ponto de vista for válido, concordar, ou, caso contrário, argumentar e tomar uma decisão.
O sistema de comunicação é bom quando não se nota que ele existe. Uma organização comunica-se de forma perfeita quando os seus órgãos se comunicam entre si de forma contínua e informal, quer com os escalões superiores, quer inferiores, ou do mesmo nível na organização, e quando todos contam a mesma história para o exterior: clientes; acionistas; governo; comunidade; etc.
O termo comunicação tem vários sentidos possíveis, revestindo-se de diversas cambiantes, em função de quem o usa. Podemos utilizá-lo como sinónimo de «media», que hoje lhe é universalmente atribuído como meios de informação, e aqui poderíamos interrogar-nos sobre a expressão meios de informação: o que quer significar? São veículos de informação ou, de preferência, dos conteúdos que eles veiculam?
Há a convicção de que saber é poder, e os meios de comunicação podem facilmente condicionar indivíduos e coletividades; através deles podemos ser condicionados a considerar umas culturas superiores a outras e até classificarmos, em escalas valorativas, sociedades e países.
Para os «media» de massa, a informação tenta captar o imediato, o agora, o fugaz. Porém existem duas realidades: uma rotulada como a «sociedade do saber» (a escola) e a outra «a sociedade dos média de comunicação», reivindicando para si próprias objetivos similares e recusando-se ao mesmo tempo mutuamente, quer de forma explícita, quer implícita. A escola considera praticamente os «media» como algo de estranho e que muitos dos seus agentes e responsáveis, os representantes de uma cultura paralela à da escola, e a sua formação específica considerada, ou indiferenciada ou básica, resultado da sua experiência vulgar ou imediata. Daí a recusa e desdém da escola face aos «media», retirando-lhes toda a dignidade cultural.
Porém algo começou a mudar com o ensino à distância, com as universidades abertas e com a internet. Esta mudança de atitude deve-se ao facto der se ter percebido que a imagem teve, e terá sempre, tanto impacto na cultura humana, como a linguagem articulada ou escrita, e que, por isso, ela é tão antiga como as raízes culturais. As imagens parecem adequar-se mais às disciplinas descritivas, assim como a sensibilidade ao som, o ouvido fiel, podem favorecer a aprendizagem de línguas, por exemplo. Não se estranhará, portanto, que os chamados audiovisuais possam ser mais facilmente usados, por serem fáceis de manipular e controlar, e os «media» exerçam uma influência constante, perdurando o seu prestígio e fascínio ao longo de todas as fases da vida.
Nas sociedades modernas a lei do mais forte implica, em grande medida, o acesso imediato ao saber, à apropriação de dados acumulados, e aqui reside o fascínio da informática, cuja utilização pode não se revelar consentânea com os valores e modelos da escola tradicional: a reflexão crítica, a abstração, a neutralidade e a tolerância.
Ao falarmos de cultura referimo-nos concretamente a quê? Encarando-a no sentido mais amplo do termo, cultura consiste nos meios que os homens foram criando para agir sobre o mundo. Dela fazem parte utensílios, máquinas, objetos artísticos e literários, palavras, conceitos, técnicas mentais, formas de pensamento, ou seja, tudo aquilo que designaríamos por saber-fazer. Cultura é o resíduo da experiência do passado gravado na memória, quer do indivíduo, quer da coletividade. Bibliotecas, museus, academias, institutos, agrupamentos de intervenção social, etc., constituem manifestações dessa cultura.
Num mundo em que uma cultura de base parece ser um direito de todos, em que a democratização dos bens faz parte da consciência comum, qual a correlação entre esta aspiração legítima dos cidadãos e a aspiração a ela através dos meios de comunicação, designadamente a imprensa, a rádio, a televisão e a internet? A sensação que o cidadão comum pode ter é a de se encontrar constantemente em direto com fontes de saber, tão válidas como as da escola tradicional.
E aqui também se pode afirmar que o indivíduo vai criando uma cultura que não tem unidade, caótica e transitória. Face ao bombardeamento a que é submetido, tem mais a sensação de que lhe é imposta uma cultura, do que ele a pode escolher e controlar. Desse modo se vão aceitando inconscientemente sistemas simbólicos comuns, as diferenças, os particularismos de grupo, as especificidades, diluem-se cada vez mais e imergem os lugares-comuns.
Um dos maiores desafios da cultura e da educação de hoje será o de ensinar as pessoas a utilizar de forma adequada e positiva os imensos recursos oferecidos pelos «media», preservando a sua personalidade e as suas capacidades criativas, aprendendo a descodificar as linguagens e os conteúdos. A escola, a família e a sociedade não podem ignorar o imenso potencial pedagógico e cultural das novas fontes de informação. Será criminoso não os aproveitar adequadamente.
A comunicação de massas não pode apenas ser encarada e acusada de destruir valores, de não obedecer a programas rigorosos e sequenciais, de não favorecer a conceptualização, o raciocínio crítico, a descoberta individual e de impor ao indivíduo um ritmo desajustado e alienador, de se preocupar apenas com o passageiro, o fugidio, o atual, de realçar o sensacionalismo, a desordem, os contravalores, o acesso fácil aos prazeres e ao dinheiro.
O aperfeiçoamento progressivo dos transportes e das comunicações vem provocando choques sucessivos de grande impacto desde, pelo menos, a época das grandes navegações atlânticas, começando a misturar culturas e a proceder a uma progressiva integração e interação mútuas.
O impacto das novas tecnologias no que se refere à cultura concentrada, isto é, às tradicionais bibliotecas, veio alterar os velhos paradigmas, criando novas necessidades e sempre mais exigentes. A informação está cada vez menos ligada ao suporte físico. O bibliotecário era alguém trabalhando sobre determinados produtos (livros, revistas) e os seus clientes eram os frequentadores das bibliotecas, para obterem a desejada informação. Cada vez mais esses procedimentos são dispensáveis. Vive-se progressivamente mais naquilo a que um autor chamou “as bibliotecas sem paredes para livros sem páginas”. Trata-se de uma revolução sem precedentes. As “tecnologias da inteligência” tornam pouco importante o lugar onde se encontra o documento. O que mais interessa é saber a sua fiabilidade e importância. As bibliotecas virtuais apontam para a possibilidade de informação sem posse física dos seus instrumentos. A construção das bibliotecas virtuais, a sua otimização e seu manuseio, são cada vez mais função de técnicos de comunicações tecnológicas de ponta.
Embora se tenda para novos formatos e paradigmas, o livro, contudo, continua a ser indispensável como meio de comunicação e de transmissão/aquisição de cultura.
As novas tecnologias são apenas mais uma etapa na longa história do livro, e não parecem, pois, adivinhar a sua morte física.
Como se vê, a comunicação e a cultura estão condenados a marchar solidariamente desde o início do terceiro milénio.

Fontes:
(António Camilo-Alves; João Carlos A. Pinto – Universidade Autónoma de Lisboa – 2014)
(A Importância da Comunicação nas Organizações. Priscilda P. F. Coelho – Fund. Educ. do Município de Assis – Inst. Sup. de Assis Campus «José Santilli Sobrinho»)
(Eugénio dos Santos – Comunicação e Cultura: uma abordagem – Universidade do Porto, Faculdade de Letras) 

sábado, 18 de setembro de 2021

OS TÍTULOS DE NOBREZA EM PORTUGAL E SUAS ORIGENS

As sociedades com uma hierarquia definida e dominadas por uma classe superior, detentora de privilégios, já existiam em tempos pré-históricos. Há evidências que nos indicam que nas civilizações pré-gregas já existia um conceito de nobreza de certa maneira comparável ao que se tornou popular no ocidente; um rei e uma classe rica e poderosa que vivia em palácios, embora não seja fácil determinar como essas sociedades funcionavam.
A Alta Idade Média (séculos V a XV) ficou marcada por uma série de invasões da região latina pelos povos bárbaros. Uns dos mais bem-sucedidos foram os povos germânicos. Para estes, a nobreza tinha o estatuto de homem livre, face ao valor militar e à sua capacidade de reunir um exército, para se afirmar politicamente e garantir a posse de terras, vindo a produzir uma série de reis da Itália após a queda do Império Romano. Valores que logo se fundiram à nobilitas romana, permitindo que os nobres da primeira Idade Média, escudados no desempenho de altos cargos públicos e, principalmente, na sua riqueza, o senhorio da terra e o comando militar.
Estas invasões continuaram pelo sul da Europa, chegando até à Península Hispânica, onde se estabeleceram com os seus sistemas de organização político-administrativo. Anteriormente pagãos, os germanos converteram-se ao cristianismo.
Posteriormente sucedeu a invasão da Península Hispânica pelos Árabes, que ocorreu a partir de 711 até 713, quando tropas e populações muçulmanas do norte de África cruzaram o estreito de Gibraltar e penetraram pelo interior da Península, reduzindo os cristãos à escravatura e empurrando os mais resilientes até ao norte, para as Astúrias.
Foi D. Pelaio, que escapando da derrota de Guadalete, fugiu para as cavernas de Covadonga e aí formou um núcleo de guerreiros, com o qual foi dando luta aos islâmicos, dando-se a partir daí a reconquista da Península Ibérica, que perdurou por mais de 6 séculos.
À medida que o território peninsular ia sendo reconquistado, aqueles que mais se distinguiam pelo seu valor, foram adquirindo vastas propriedades, não tardando a aparecer novas distinções, designando não só as qualidades pessoais, mas circunstâncias especiais que revelavam na luta.
Assim, os que pelejavam com espada e escudo, eram os escudeiros, os que combatiam montados, eram os cavaleiros e os que mais enriqueciam com os despojos do inimigo, eram os ricos-homens.
O pequeno reino das Astúrias, à força de vitórias, transformou-se no mais vasto reino de Oviedo e depois na poderosa monarquia de Leão. E foi a partir daqui que se introduziram as primeiras distinções da nobreza, numa nomenclatura hierárquica composta com os títulos de vassalos, infanções e ricos-homens, que da corte de Leão passou para o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques.

Infanção

Supõe-se que o título de infanção teve início na corte de Oviedo, dado aos segundos filhos dos fidalgos, indistintamente ao princípio e depois por mercê do rei. Dizia-se também que, vendo o povo que os reis davam o título de infante aos seus segundos filhos, começou a dar o de infanções aos segundo filhos dos ricos-homens.
Qualquer que seja a sua origem, este título era puramente honorífico e só dado por carta ou alvará régio.
Os mais antigos infanções de Portugal foram os da Terra de Santa Maria, Terra da Feira, hoje Santa Maria da Feira. Aqui todos os peões tinham o privilégio de escudeiros, todos os escudeiros o de cavaleiros e todos os cavaleiros tinham o privilégio de infanções.
D. João I, em prémio de lealdade a bravura dos lisbonenses aquando da defesa da cidade contra os castelhanos e mais adiante aos moradores de Braga, Évora, Porto e outras terras, concedeu-lhes os privilégios de infanções.
Nos alvarás em que se concedia este título, uma das fórmulas era a seguinte: «que os cidadãos de … seriam igualados aos infanções da Terra de Santa Maria».

Rico-homem

Conferido pelos reis como título de nobreza, no seu princípio apenas designava o que possuía grandes propriedades, porém, não era sem encargos; como os reis sustentavam os seus soldados, os ricos-homens eram obrigados a sustentar um certo número deles.
A este título foram-se juntando vários privilégios; tinham o comando dos exércitos das praças de primeira ordem e de províncias, e a sua autoridade apenas se subordinava ao seu soberano; não eram obrigados ao serviço militar, senão quando o rei entrava em campanha; eram do conselho do rei e, nas doações régias, assinavam depois do rei e dos infantes.
Às mulheres dos ricos-homens se dava o título de ricas-donas.
O seu distintivo era o pendão e a caldeira, que traziam na guerra. Na frente, o pendão com uma caldeira pintada e uma divisa própria, para se distinguirem dos outros, e, na retaguarda, a caldeira para confecionar as refeições dos soldados que tinham obrigação de sustentar. É por este facto que depois se denominaram ricos-homens de pendão e caldeira.
D. Afonso V concedeu o último título de rico-homem em Portugal, no dia 1 de julho de 1451, a Nuno Martim da Silveira, seu escrivão da puridade e caudel-mor.

Vassalo

Este título sofreu grandes modificações em Portugal, daí resultando variar também a sua significação a valia.
Na “Lei das Partidas” de D. Afonso, o Sábio, rei de Castela, que D. Dinis mandou traduzir e observar, «vassalo é aquele que recebe honra ou boa obra do senhor, com o grau de cavaleiro, terras ou dinheiro, por serviço assinalado que lhe haja de fazer.»
Eram três as categorias de vassalos:
- Os senhores das terras e os alcaides-mores ou governadores de castelos e fortalezas, que dependiam do rei e lhe prestavam preito e homenagem;
- Os fidalgos acontiados;
- Os populares abastados que serviam na guerra.
A primeira era composta de ricos-homens e constituía a principal nobreza da nação; à segunda, os fidalgos acontiados, os que não eram donatários da coroa e aos quais os reis pagavam certa quantia anual, pelo que eram obrigados, não só a servir na guerra, mas a levar à sua custa certo número de cavaleiros ou peões. Tinham o privilégio de juro de herdade, ou seja, os filhos sucediam aos pais e venciam certa quantia logo que nasciam; a terceira categoria saía do povo, muito inferior às precedentes e regulada pela riqueza do indivíduo. Eram os súbditos dos donatários da coroa e de outros senhores, a cujo serviço militavam com armas e cavalo, sem que isso os obrigasse a servir o rei. Entre estes também havia acontiados, não do rei, mas do senhor a quem serviam.
Assim havia vassalos da coroa e dos senhores, mas D. João I acabou com isto e determinou que só houvesse vassalos da coroa, passando o tesouro a pagar as contias que os senhores habitualmente pagavam.
Finalmente passaram a ser vassalos todos os que serviam na guerra, quer cavaleiros quer peões, e quaisquer que fossem as armas com que combatessem, vindo a dar-se a todos os súbditos do rei, qualquer que fosse a sua categoria. As duas primeiras categoria foram a pouco e pouco caindo em desuso e a terceira prevaleceu até 1820, altura em que o nome de vassalo passou a súbdito.

Fidalgo

É uma palavra de origem castelhana – hijo d’algo, por abreviatura hi-dalgo. Como os espanhóis aspiram o h e nós não, do h aspirado fizemos f e dizemos – fidalgo, que quer dizer, que tem alguma coisa, que tem algo em bens ou nobreza.
Foi introduzida em Portugal no reinado de D. Afonso III, para distinguir os cavaleiros e escudeiros de linhagem dos que o eram por graça especial do seu suserano. Apareceu pela primeira vez no foral que D. Afonso deu a Vila Real, em que diz que o alcaide-mor do castelo seria sempre filium d’algo e que vingasse (ganhasse) 50 soldos.
D. Afonso V determinou que os fidalgos do reino entrassem ao serviço da casa real, inscritos como moradores no paço, recebendo anualmente certas pagas, segundo a jerarquia ou serviços prestados, às quais se deu o nome de moradias. Foram então os fidalgos classificados em diferentes categorias, sendo divididos em duas ordens, cada uma delas com três graus.
1ª ordem: 1º grau – fidalgo cavaleiro; 2º grau – fidalgo escudeiro; 3º grau – moço fidalgo.
2ª ordem: 1º grau – cavaleiro fidalgo; 2º grau – moço de câmara; 3º grau – escudeiro fidalgo.
Todos eles recebiam moradia e podiam ir subindo gradualmente, desde escudeiro fidalgo da 2ª ordem até fidalgo cavaleiro da 1ª ordem.
Os fidalgos que serviam no paço, denominavam-se fidalgos com exercício, mas depois deu-se esta designação a todos, servissem ou não o rei. Ter foro de fidalgo, é ser feito fidalgo sendo filho de pai que o não era, bastando provar-se ser filho legítimo de pai fidalgo para obter o primeiro foro de nobreza.
Eram os reis concediam foro de fidalgo, porém os príncipes e infantes também o podiam fazer, desde que confirmados pelo rei. Os duques de Bragança também tinham esta prerrogativa, sujeita também à confirmação do soberano.

Dom

Dominus é vocábulo latino que significa senhor. No princípio do cristianismo dava-se apenas a Deus, depois passou a dar-se aos papas, mas com uma variante, de Deus dizia-se dominus e do papa domnus, faltava a este o i do ente supremo. Durante muitos anos só aos papas se dava este tratamento, depois estendeu-se aos bispos, mais tarde aos abades e, por fim, aos monges de certas ordens.
Dos padres e frades passou o dom aos seculares, sendo D. Pelaio o primeiro que usou o prenome de Dom quando, no princípio do século VIII, no vale de Covadonga foi aclamado pelas suas tropas rei das Astúrias. Os seus descendentes seguiram-lhe o exemplo, comunicando o dom às suas mulheres e filhos, o mesmo vindo a fazer, aplicando a si o título de dom, os prelados, os ricos-homens e suas mulheres e os cavaleiros que se julgavam com direito a este tratamento por sua linhagem.
Este título foi introduzido em Portugal em conjunto com outras práticas castelhanas. Este tratamento era somente conferido pelos nossos primeiros reis, que o davam em prémio de relevantes serviços, não se permitindo que fosse usado pelos seus filhos bastardos. O próprio D. Sancho I nomeia quási todos os seus filhos bastardos sem dom, e o mesmo fez D. Dinis.
O primeiro filho bastardo com tratamento de dom, foi o filho bastardo de D. Pedro I, D. João, Mestre de Aviz, depois rei D. João I.
Este tratamento de dom foi prodigalizado no tempo de D. Afonso V, dando azo a que muitos deles se apropriassem sem permissão.
No reinado de seu sucessor, D. João II, Garcia de Rezende queixava-se, nas suas “Miscelâneas”, deste abuso. Diz assim:
Os reys por acrecentar / As pessoas em valia, / por lhes serviços pagar, / vimos uns o dom dar, / e a outros fidalguia. / Já se os reys não há mister, / Pois toma o dom quem o quer, / E as armas nobres tãobem. / Toma quem armas não tem, / E dá o dom à molher.
Na verdade D. João II pôs algum travão nisto e passou a ser mais avaro a dar títulos de nobreza. No princípio do século XVI este tratamento ainda era muito estimado. Vasco da Gama deu-se por muito bem pago com o título de dom e uma tença de 400$000, pela descoberta do caminho marítimo para a Índia. Em 1611, Flipe III autorizou que os filhos bastardos dos titulares de dom também o pudessem usar e D. José também concedeu este título às mulheres dos negociantes matriculados na praça de Lisboa, no entanto, pouco a pouco este o dom foi perdendo valia.

Barão

Derivada da palavra latina baro, era usada na baixa latinidade para significar homem. Ao princípio não passava disso, mas depois passou a homem de respeito e autoridade. Subindo a sua valia, barão designava já o homem poderoso em bens e senhorio. Com o tempo, foi-se dando o título de barão de tal, àquele que possuía uma grande quinta ou propriedade, que se elevava então em baronia. Mas tanto foi o abuso deste título na Europa, que perdeu grande parte da estimação e apreço em que era tido.
Foi D. Afonso V que o introduziu em Portugal, em 27 de abril de 1475, fazendo João Fernandes da Silveira barão de Alvito. A 9 de agosto de 1653, o então 7º barão de Alvito, D. Luiz Lobo da Silveira, foi, por D. João IV, feito conde d’Oriola, porém o povo nunca lhe chamou conde d’Oriola, mas sim barão d’Alvito ou, simplesmente, conde-barão. D. José, em 1766, elevou D. José António Francisco Lobo da Silveira, 3º conde d’Oriola e 10º barão d’Alvito, a marquês d’Alvito.
Foi este o único título de barão que perdurou em Portugal por espaço de 200 anos. D. Afonso VI havia criado o título de barão da Ilha Grande, que já tinha sido extinto.

Visconde

Este título é de origem romana e dava-se ao imediato do conde que governava na sua ausência ou impossibilidade. Extinto o império romano, passados muitos anos, este título foi sendo atribuído aos filhos primogénitos dos condes enquanto eram vivos e, mais tarde, mesmo a muitos que não eram filhos nem parentes dos condes.
Este título foi introduzido em Portugal por D. Afonso V e na cidade de Toro, a 4 de março de 1476, três dias depois da célebre batalha do mesmo nome, que fez D. Leonel de Lima ou D. João Leonel de Lima, visconde de Vila Nova da Cerveira, o qual era alcaide-mor de Ponte de Lima, senhor de Arcos de Valdevez e outras terras. A 25 de setembro de 1649, D. João IV fez a D. António de Castelo-Branco visconde de Castelo Branco, que mais tarde, em 1668, D. Afonso VI fez conde de Pombeiro. Criou ainda D. Afonso VI o viscondado de Barbacena, mais tarde condado e depois extinto, e o viscondado de Asseca. D. Pedro II criou o viscondado de Fonte-Arcada, assim como D. João VI fez muitos viscondes. A partir de 1834 aumentou exponencialmente o número de viscondes.

Conde

O título de conde ocupa o primeiro lugar entre os títulos de nobreza pela sua antiguidade. A sua origem remonta aos imperadores romanos e foi também o primeiro título de nobreza que se usou em Portugal. O imperador Valeriano tinha, de entre os seus senadores, um grupo de conselheiros, chamados comites (companheiros), para o auxiliar no governo, os quais obrigava a segui-lo por toda a parte.
Era um título muito ambicionado e objeto de pedidos por pessoas distintas, acabando o imperador por permitir que juntassem ao título de comes, o seu cargo, exemplo: comes-rex-privatæ – mordomo-mor; comes-scravestis – camareiro-mor; comes-strabulæ – estribeiro-mor; comes-largitionum – veador (vedor), etc. e, mais tarde, aos governadores de província também se deu o título de conde.
Os germânicos, após a conquista de Roma, adotaram o título de comes (conde) para os principais cortesãos das suas cortes. De Itália passou este título às Gálias e às Hispânicas, mas com duas categorias de condes; aos primeiros, mais nobres e que desempenhavam cargos na corte, antepunha-se-lhes ao nome o título, exemplo: conde D. F…; aos segundos, os governadores de província ou das capitais dessas províncias, mas que os romanos titulavam de condes da província que geriam, porém, os godos davam-lhes o título de conde da província ou cidade que governavam, exemplo: conde da Gália, conde de Coimbra, etc.
A invasão muçulmana acabou com este e outros títulos de nobreza, mas, com a criação dos novos estados cristãos, estes foram-se restabelecendo. No caso dos reinos de Oviedo e Leão (D. Afonso III, o Magno), a parte de Portugal reconquistada aos mouros, era em seu nome governada pelos condes de Coimbra, Idanha, Porto e Viseu.
No século IX havia uma outra classe de condes, de categoria mais elevada, com prerrogativas de soberania; era o caso do conde soberano de Barcelona, condado fundado em 801, e o conde soberano de Navarra, fundado em 836 e transformado em reino em 857. Em 1093, D. Afonso VI, rei de Leão e Castela, fundou o Condado Portucalense, dando-o a sua filha D. Tereza e a seu marido, o conde D. Henrique.
Aclamado D. Afonso Henriques como rei de Portugal, não fez novos condes na sua corte, conservando os já havidos pelos reis de Leão e Castela. D. Dinis foi o primeiro a conceder o título de conde, fazendo o seu mordomo-mor conde de Barcelos, por carta passada em Santarém, em 8 de maio de 1298; D. Pedro I criou o condado de Ourém, e D. Fernando criou os condados de Arraiolos, Neiva, Faria, Ceia e Sintra. Nos reinados seguintes foram-se multiplicando os condes.

Marquês

É igualmente de procedência latina, no entanto os alemães davam-no aos governadores de província com o nome de markgraff, palavra composta de dois vocábulos – mark (marca, limite ou fronteira) e graff – conde. De margrave se originou o marquês. De notar que da palavra marca (mark) nós derivamos a palavra comarca.
Em Itália, aqueles a quem era confiado o governo das fronteiras, chamavam-se marchiones. Aos indivíduos que exerciam cargo idêntico na França, se lhes dava o título de marches, que depois passou para marquis.
14 de outubro de 1451, foi a data da criação do primeiro marquês em Portugal. Foi ele D. Afonso, conde de Ourém, filho de D. Afonso I, Duque de Bragança, elevado a marquês de Valença, título concedido por D. Afonso V, rei de Portugal. Mais tarde, 25 de maio de 1455, elevou a marquês de Vila Viçosa D. Fernando, conde de Arraiolos, e, em 1472, D. João, filho deste marquês de Vila Viçosa e que já então era duque de Bragança, foi levado a marquês de Montemor.
Durante a usurpação dos Filipes de Espanha, este título foi profusamente distribuído. Muitos fidalgos o compraram com títulos, outros com dinheiro e vastas propriedades e muitos com tudo isso.

Duque

Título também de origem romana. A palavra latina dux significa capitão e deriva-se do verbo ducere, sinónimo de guiar. Ao princípio, os romanos davam o título de dux aos cabos de guerra. Já no tempo dos imperadores era atribuído aos governadores de província e era um título mais elevado e desejado que o de conde, que ia perdendo a sua valia em virtude da sua generalização.
Assim como herdaram o título de comes, os godos também atribuíram o título de dux aos governadores das fronteiras dos países que foram ocupando na Península, chamando-lhes duces ou duks. Tinham, além do comando das tropas, o governo civil e judicial e arrecadação de impostos. Como os outros, extinguiu-se na Península durante a invasão islâmica, subsistindo, porém, na Europa, onde os lombardos também o haviam herdado dos latinos.
Em Portugal não houve duques até 1415, quando D. João I fez em Tavira, no regresso da tomada de Ceuta, os seus filhos, os infantes D. Pedro e D. Henrique, duques de Coimbra e de Viseu, respetivamente.

A partir do século XVIII observou-se em muitos governos um esforço para definir com mais precisão os critérios de nobreza, reorganizar a classe, excluindo das suas fileiras quem não apresentasse documentação sólida para atestar a sua nobreza. A supremacia da burguesia capitalista no século XIX não pôs fim à nobreza, o que muitos entendem como uma reação conservadora, onde uma alta burguesia composta de novos-ricos absorve os princípios e estilo de vida da nobreza, enquanto esta se agarra a altos postos de comando e ostenta o aparato estatal com seus valores. Porém, a queda da maioria das monarquias europeias no século seguinte e a modernização dos estados, acabou por despojar a nobreza da maioria dos seus antigos privilégios, embora muitos dos seus descendentes ainda detenham alguma riqueza, prestígio e projeção social.

Bibliografia:
Leal, Pinho, Portugal Antigo e Moderno, volume IV.