Meus rapazes, minhas raparigas,
Tenho quase noventa anos e uma casa que ficou pronta quando já nos começavam a faltar pessoas para a encher.
Talvez devesse começar por outra coisa. Pelo meu nome, Manuel Muralhas, ou pelo nome desta vila, que pouco vos diria. Mas, quando um homem chega à minha idade, acaba por perceber que a sua morada são os nomes daqueles que lhe fazem falta, e que falta!
A minha mulher, amor da minha vida, a minha Rosa. E digo “chama-se” porque ainda não aprendi a pôr o nome dela no passado.
Vi-vos na televisão com cartazes e a voz inteira a pedir uma casa, assim, como quem pede um copo de água. Eu estava na cozinha a descascar uma maçã. Desde que os dedos se entortaram, demoro tanto que a maçã vai escurecendo antes de eu acabar.
Ouvi-vos. Depois baixei o som. Fiquei em silêncio. O meu melhor amigo.
Precisava de pensar no que vos queria dizer.
A Rosa e eu tivemos cinco filhos. Para os criar trabalhámos enquanto houve luz e, muitas vezes, depois de a luz acabar. Eu saía para os campos, ela ficava com os filhos, os animais, a roupa, a horta e ainda vinha ajudar-me (sim, ela era maravilhosa). Havia dias em que nos encontrávamos ao jantar e parecia que tínhamos atravessado dois países a pé.
À noite, ela adormecia com a costura no colo a ver a novela Escrava Isaura. Eu tirava-lhe a agulha da mão para não se picar.
A nossa casa começou por ser um bocado de terreno e uma conversa à mesa. Depois vieram os alicerces. Depois duas paredes que ficaram um inverno inteiro à chuva. Comprávamos material quando sobrava algum dinheiro e quase nunca sobrava.
O vosso quarto, dizia eu aos filhos, vai ser aqui.
E apontava para um lugar onde ainda cresciam ervas.
Durante muito tempo a minha Rosa quis uma janela por cima da banca da cozinha. Queria lavar a loiça a olhar para a figueira do quintal. Parecia-me um desejo pequeno. Hoje sei o tamanho que pode ter uma janela na vida de uma mulher que passa os dias a trabalhar.
Quando finalmente a pusemos, ficou ali parada, com as mãos no avental.
Não disse nada. Eu também não soube dizer.
Vivemos de cabeça erguida. Pagámos o que devíamos, ensinámos os filhos a trabalhar, a cumprir a palavra, a não humilhar ninguém. Houve meses em que a conta da mercearia me tirou o sono. Nunca quis que eles soubessem.
Talvez tenha errado nisso. Os filhos deviam conhecer um pouco do peso que os pais transportam. Mesmo quando os pais, por amor, fazem tudo para parecer leves.
Nunca pedimos nada ao Governo. Pedíamos saúde, entre nós, quando um dos dois começava a tossir de maneira diferente. Mas não confundais o nosso silêncio com uma vida a que não faltou nada.
Faltou-nos muito.
Faltaram dentes à Rosa. Faltaram-me dias em casa quando os filhos eram pequenos. Faltaram-nos descansos, consultas, coisas que adiámos tanto que deixaram de poder ser feitas.
A pobreza também nos ensinou a dizer «não é preciso» quando era. Era mesmo, raios…
Escrevo-vos porque ao ouvir os vossos gritos e impropérios pensei em quantas aldeias e vilas deste país continuam sem ser ouvidas. Por exemplo, no Douro Vinhateiro existem mais de VINTE MIL produtores de vinho, que trabalham arduamente, e perante uma crise sem precedentes não têm um centésimo de palco que vocês têm com as vossas tendas.
Ao longo das últimas décadas, daqui desta e de muitas outras aldeias, partiram milhares de rapazes e raparigas para Lisboa e para o Porto, uns para estudar outros para trabalhar. Alguns foram com uma mala emprestada. Nós ficámos a tratar das terras e a esperar pelos domingos em que regressavam.
Depois passaram a vir uma vez por mês.
Depois pelo Natal.
Não vos conto isto para vos prender à aldeia. Também eu quis conhecer mundo. Houve uma altura em que guardava fotografias de Paris numa gaveta. A Rosa ria-se e dizia que para ela já chegava receber os filhos e os netos na nossa casa.
Sonhamos muitas vezes em sair para o estrangeiro, para viajar juntos. Fomos uma vez. A Lisboa! E vimos o mar! Ainda tenho a fotografia dela a segurar os sapatos com medo de que uma onda lhos levasse.
Compreendo que queirais partir. Compreendo que queirais uma chave, uma mesa, um lugar onde pousar a cabeça sem depender de ninguém. Tive esse desejo antes de vocês nascerem.
O que vos peço é que não esqueçais o tempo, o sacrifício e o trabalho que uma vida exige.
Há quem vos venda a ideia de que tudo tem de acontecer agora, assim que a vontade chega, as viagens, a roupa, as festas, uma felicidade sempre pronta a ser mostrada. Tenham cuidado com isso. Não entreguem o vosso ordenado à obrigação de parecer felizes.
E eu também tenho de ter cuidado com aquilo que penso de vocês.
Não conheço a vida de quem vi na televisão. Não sei quem veio de um turno, quem divide um quarto, quem faz contas ao supermercado como eu fazia à mercearia. Não seria justo olhar para uma multidão e decidir que ninguém ali sabe trabalhar.
A idade devia servir para nos tornar mais justos.
Se apenas nos torna mais duros, alguma coisa aprendemos mal.
Há, contudo, uma coisa que vos quero pedir com o pouco de voz que ainda tenho.
Olhem para nós.
Entrem nas aldeias sem ser apenas para fotografar a paisagem. Perguntem à mulher que vive sozinha como vai à consulta. Perguntem ao homem que deixou de aparecer no café se ainda consegue descer as escadas. Perguntem quanto custa chegar à farmácia quando já não se pode conduzir.
Perguntem-nos o que nos falta.
E, se respondermos «nada», fiquem mais um bocadinho.
Nós fomos ensinados a não dar trabalho. Mesmo quando o trabalho de continuar vivos já é demasiado.
Não vos desejo a vida que tivemos. Custou-nos muito conseguir dar aos nossos filhos alguma coisa melhor. Seria triste chegar agora ao fim e querer tirar-vos aquilo por que nos gastámos.
Desejo-vos uma casa. Desejo que trabalhem por ela e que o vosso trabalho chegue para a pagar. Desejo que possam formar uma família sem esperar até ser tarde.
Só vos peço que enquanto reclamam um lugar para começar a vida se lembrem de quem precisa de ajuda para a acabar com dignidade.
Eu continuo aqui. Trato de uma pequena horta. A vinha já não consigo. Há manhãs em que abro a porta e fico um instante à espera de ouvir a Rosa perguntar se levo o casaco.
A janela que ela quis continua por cima da banca.
A figueira cresceu tanto que quase não deixa entrar o sol.
Tenho de pedir a alguém que a venha podar.
Estou há dois anos para pedir.
Manuel Muralhas
Um vosso amigo.
Texto: Manuel Muralhas
Tenho quase noventa anos e uma casa que ficou pronta quando já nos começavam a faltar pessoas para a encher.
Talvez devesse começar por outra coisa. Pelo meu nome, Manuel Muralhas, ou pelo nome desta vila, que pouco vos diria. Mas, quando um homem chega à minha idade, acaba por perceber que a sua morada são os nomes daqueles que lhe fazem falta, e que falta!
A minha mulher, amor da minha vida, a minha Rosa. E digo “chama-se” porque ainda não aprendi a pôr o nome dela no passado.
Vi-vos na televisão com cartazes e a voz inteira a pedir uma casa, assim, como quem pede um copo de água. Eu estava na cozinha a descascar uma maçã. Desde que os dedos se entortaram, demoro tanto que a maçã vai escurecendo antes de eu acabar.
Ouvi-vos. Depois baixei o som. Fiquei em silêncio. O meu melhor amigo.
Precisava de pensar no que vos queria dizer.
A Rosa e eu tivemos cinco filhos. Para os criar trabalhámos enquanto houve luz e, muitas vezes, depois de a luz acabar. Eu saía para os campos, ela ficava com os filhos, os animais, a roupa, a horta e ainda vinha ajudar-me (sim, ela era maravilhosa). Havia dias em que nos encontrávamos ao jantar e parecia que tínhamos atravessado dois países a pé.
À noite, ela adormecia com a costura no colo a ver a novela Escrava Isaura. Eu tirava-lhe a agulha da mão para não se picar.
A nossa casa começou por ser um bocado de terreno e uma conversa à mesa. Depois vieram os alicerces. Depois duas paredes que ficaram um inverno inteiro à chuva. Comprávamos material quando sobrava algum dinheiro e quase nunca sobrava.
O vosso quarto, dizia eu aos filhos, vai ser aqui.
E apontava para um lugar onde ainda cresciam ervas.
Durante muito tempo a minha Rosa quis uma janela por cima da banca da cozinha. Queria lavar a loiça a olhar para a figueira do quintal. Parecia-me um desejo pequeno. Hoje sei o tamanho que pode ter uma janela na vida de uma mulher que passa os dias a trabalhar.
Quando finalmente a pusemos, ficou ali parada, com as mãos no avental.
Não disse nada. Eu também não soube dizer.
Vivemos de cabeça erguida. Pagámos o que devíamos, ensinámos os filhos a trabalhar, a cumprir a palavra, a não humilhar ninguém. Houve meses em que a conta da mercearia me tirou o sono. Nunca quis que eles soubessem.
Talvez tenha errado nisso. Os filhos deviam conhecer um pouco do peso que os pais transportam. Mesmo quando os pais, por amor, fazem tudo para parecer leves.
Nunca pedimos nada ao Governo. Pedíamos saúde, entre nós, quando um dos dois começava a tossir de maneira diferente. Mas não confundais o nosso silêncio com uma vida a que não faltou nada.
Faltou-nos muito.
Faltaram dentes à Rosa. Faltaram-me dias em casa quando os filhos eram pequenos. Faltaram-nos descansos, consultas, coisas que adiámos tanto que deixaram de poder ser feitas.
A pobreza também nos ensinou a dizer «não é preciso» quando era. Era mesmo, raios…
Escrevo-vos porque ao ouvir os vossos gritos e impropérios pensei em quantas aldeias e vilas deste país continuam sem ser ouvidas. Por exemplo, no Douro Vinhateiro existem mais de VINTE MIL produtores de vinho, que trabalham arduamente, e perante uma crise sem precedentes não têm um centésimo de palco que vocês têm com as vossas tendas.
Ao longo das últimas décadas, daqui desta e de muitas outras aldeias, partiram milhares de rapazes e raparigas para Lisboa e para o Porto, uns para estudar outros para trabalhar. Alguns foram com uma mala emprestada. Nós ficámos a tratar das terras e a esperar pelos domingos em que regressavam.
Depois passaram a vir uma vez por mês.
Depois pelo Natal.
Não vos conto isto para vos prender à aldeia. Também eu quis conhecer mundo. Houve uma altura em que guardava fotografias de Paris numa gaveta. A Rosa ria-se e dizia que para ela já chegava receber os filhos e os netos na nossa casa.
Sonhamos muitas vezes em sair para o estrangeiro, para viajar juntos. Fomos uma vez. A Lisboa! E vimos o mar! Ainda tenho a fotografia dela a segurar os sapatos com medo de que uma onda lhos levasse.
Compreendo que queirais partir. Compreendo que queirais uma chave, uma mesa, um lugar onde pousar a cabeça sem depender de ninguém. Tive esse desejo antes de vocês nascerem.
O que vos peço é que não esqueçais o tempo, o sacrifício e o trabalho que uma vida exige.
Há quem vos venda a ideia de que tudo tem de acontecer agora, assim que a vontade chega, as viagens, a roupa, as festas, uma felicidade sempre pronta a ser mostrada. Tenham cuidado com isso. Não entreguem o vosso ordenado à obrigação de parecer felizes.
E eu também tenho de ter cuidado com aquilo que penso de vocês.
Não conheço a vida de quem vi na televisão. Não sei quem veio de um turno, quem divide um quarto, quem faz contas ao supermercado como eu fazia à mercearia. Não seria justo olhar para uma multidão e decidir que ninguém ali sabe trabalhar.
A idade devia servir para nos tornar mais justos.
Se apenas nos torna mais duros, alguma coisa aprendemos mal.
Há, contudo, uma coisa que vos quero pedir com o pouco de voz que ainda tenho.
Olhem para nós.
Entrem nas aldeias sem ser apenas para fotografar a paisagem. Perguntem à mulher que vive sozinha como vai à consulta. Perguntem ao homem que deixou de aparecer no café se ainda consegue descer as escadas. Perguntem quanto custa chegar à farmácia quando já não se pode conduzir.
Perguntem-nos o que nos falta.
E, se respondermos «nada», fiquem mais um bocadinho.
Nós fomos ensinados a não dar trabalho. Mesmo quando o trabalho de continuar vivos já é demasiado.
Não vos desejo a vida que tivemos. Custou-nos muito conseguir dar aos nossos filhos alguma coisa melhor. Seria triste chegar agora ao fim e querer tirar-vos aquilo por que nos gastámos.
Desejo-vos uma casa. Desejo que trabalhem por ela e que o vosso trabalho chegue para a pagar. Desejo que possam formar uma família sem esperar até ser tarde.
Só vos peço que enquanto reclamam um lugar para começar a vida se lembrem de quem precisa de ajuda para a acabar com dignidade.
Eu continuo aqui. Trato de uma pequena horta. A vinha já não consigo. Há manhãs em que abro a porta e fico um instante à espera de ouvir a Rosa perguntar se levo o casaco.
A janela que ela quis continua por cima da banca.
A figueira cresceu tanto que quase não deixa entrar o sol.
Tenho de pedir a alguém que a venha podar.
Estou há dois anos para pedir.
Manuel Muralhas
Um vosso amigo.
Texto: Manuel Muralhas
Fonte: https://www.facebook.com/AldeiasPortugal

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